Paris em livros: Sylvia Beach, Ernest Hemingway e Jeremy Mercer

“Concluí que todas as gerações eram perdidas, por alguma razão, sempre tinham sido e sempre haveriam de ser.” Ernest Hemingway

Nesse trecho destacado acima, Hemingway está se referindo a expressão atribuída a Gertrude Stein para designar o grupo de intelectuais que vivia em Paris nos anos anos 20 do século passado, período em que ainda não eram tão famosos como ficariam a posteri.

É sobre esse período, que Sylvia Beach e Hemingway relatam respectivamente em Shakespeare and Company: uma livraria na Paris do entre-guerras e Paris é uma festa

Já falei sobre o primeiro livro aqui no blog. Mas vale lembrar que Shakespeare and Company é a livraria especializada em literatura em língua inglesa de Sylvia Beach em Paris. É essa a Shakespeare and Company frequentada por nomes como Ernest Hemingway, T.S. Eliot e James Joyce. Aliás, a mesma que apostou pela primeira vez na publicação de Ulysses. Infelizmente a Shakespeare and Company fechou as portas durante a Segunda Guerra Mundial depois que soldados nazistas ameaçaram confiscar todo o seu estoque quando Sylvia Beach recusou vender uma edição de Finnegans Wake autografada por James Joyce. Em seu livro, ela faz vários relatos da época em que esteve à frente da livraria mais famosa do mundo, seu contato com esses autores famosos em começo de carreira e todo esforço que teve para publicar Ulysses.

As memórias de Hemingway, por sua vez, tratam do mesmo período, mas sob sua perspectiva além de ganharem uma versão mais romantizada e cheia de diálogos, tendo, inclusive, um capítulo inteiro dedicado à Shakespeare and Company, lugar onde o autor teve contato pela primeira vez com a literatura russa através de autores clássicos como Tolstoi e Dostóievski. Um dos meus capítulos preferidos, inclusive, é o capítulo em que Hemingway fala sobre sua relação de leitor com esses autores. Em seu livro, Hemingway relembra suas dificuldades financeiras, os episódios em que se envolveu com os grandes nomes da época quando ainda não eram tão grandes assim, além de compartilhar o seu processo criativo e alguns dos títulos que gostava de ler.

Mas essa ideia de geração perdida expressa por Hemingway no início desse post se estende facilmente a outras gerações como o próprio deixou claro; e como podemos ver também através do livro de Jemery Mercer, Um livro por dia: Minha temporada parisiense na Shakespeare and Company, onde teremos uma visão mais atual do círculo boêmio de Paris. A Shakespeare and Company dessas memórias, no entanto, não é a mesma da Sylvia Beach, mas a do bibliófilo comunista George Whitman; e que nos dias atuais é administrada por sua filha, a também Sylvia. E embora as gerações sejam diferentes, o desejo de se reencontrar e as dificuldades dessa busca são muito comuns entre esses jovens.

“Entregar-se inteiramente à arte, pagando um preço por isso, e passar a fome que fosse, contando que em Paris, eram, sem dúvida, ideais, modelos e valores (…) Em que mais acreditar senão na arte, que era o que explodia de mais humano e exuberante nas telas dos pintores, nas formas das esculturas e nas ousadas páginas dos escritores da moda?” Ernest Hemingway 

A livraria de George surgiu a partir de uma situação bastante peculiar, aliás, e que revela um pouco da personalidade desse livreiro e do seu comportamento frente aos negócios. Com o costume frequente de perder as chaves, resolveu se arriscar e deixar por isso mesmo, e, um dia, ao chegar em seu apartamento, deu de cara com dois desconhecidos lendo alguns de seus muitos livros. Mas em vez de se sentir incomodado com a invasão, George se incomodou com o fato de só ter café para servir aos invasores. E desde então, começou a receber pessoas interessadas em ler e a servi-las com sopa e pães, ideia que estendeu para a sua livraria mais tarde, onde costumava hospedar “jovens perdidos”. Estima-se que mais de quarenta mil pessoas já se hospedaram lá. E foi assim que Jeremy Mercer, jornalista canadense, se tornou um dos hóspedes da Shakespeare and Company; nome que George Whitman se apropriou após a morte de Sylvia Beach e resiste até os dias de hoje, sendo um ponto turístico importante em Paris.

“(…) se você quer ser escritor, tem de amar a vida, e não há melhor lugar para amar a vida do que a Shakespeare and Company (…) você pode encontrar praticamente todo mundo aqui, pode ler livros aqui, pode ver belas mulheres aqui. Aprecie lugares como este, pois não há muitos deles no mundo.” Alguém chamado Gilmore para Jeremy Mercer

Não é à toa que esse clima parisiense repleto de livros acabou se tornando o pano de fundo perfeito para o filme Meia Noite em Paris escrito e dirigido por Woody Allen, nas palavras mais uma vez de Hemingway, dessa vez direcionada a um amigo em 1950:

“Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante.”

Diário de Leitura #3: Os Miseráveis, Victor Hugo – Sobre o Bispo de Bienvenu, poder e privilégios (Sem Spoiler)

O primeiro livro da primeira parte tem aproximadamente 100 páginas e é dedicado exclusivamente ao Bispo de Bienvenu, o que tem uma razão de ser, tendo em vista que é uma das partes mais importantes de toda obra.


Primeiro pela o que o Bispo representa na vida de Jean Valjean, determinante na trajetória desse personagem e de outros que estarão ligados a ele. Mas também por concentrar algumas discussões relevantes sobre o que se pode considerar uma das suas temáticas principais: a desigualdade social. 

Esta é trabalhada através da estrutura de privilégios de alguns grupos em detrimento de outros, ilustrada principalmente pelas regalias aos quais o clero tem direito simplesmente por sua posição hierárquica dentro da sociedade francesa pós napoleônica. O bispo, no entanto, não a aceita plenamente e ousa abrir mão de sua condição privilegiada com o intuito de distribuir dentro de sua comunidade:

“(…) numa ocasião em que estava no palácio de um de seus colegas mais notáveis, escapou-lhe esta:  Que belos relógios! Que ricos tapetes! Que bibliotecas formidáveis! Mas como isso tudo deve ser incômodo! Eu não quereria ter todo esse supérfluo a me gritar continuamente aos ouvidos: – Há tanta gente com fome! Há tanta gente com frio! Há tantos pobres! Há tantos pobres!” (p. 83)

O que levanta então outra questão bastante pertinente: a Concentração e a distribuição de renda.

Além de compartilhar mais de 90% da sua renda com os mais necessitados, o Bispo de Bienvenu não mede esforços para captar mais recursos com esse objetivo. Aparentemente o Bispo pode ser um personagem com uma personalidade bastante atípica, beirando a utopia, mas é justamente pelo exagero na construção desse personagem que conseguimos observar as discrepâncias socioeconômicas da sociedade francesa do século XIX e a falta (ou até inexistência) de políticas que minimizassem essas desigualdades (que são feitas então através de ações do próprio Bispo).

“Como a miséria nas classes baixas é sempre maior que o espírito de fraternidade das classes altas, tudo era distribuído antes mesmo de ser recebido; era como água em terra seca: ele gostava de receber dinheiro, mas estava sempre precisando de mais. Privava-se, então, até do pouco que possuía.” (p.30)

Mas voltando aos privilégios… Em um dos capítulos dedicados ao Bispo intitulado como A Solidão de Dom Bievenu, o narrador chama atenção para a vida solitária que ele leva ao lado da Srta. Baptistine e da Mme. Magloire – sua irmã e o que eu considero uma espécie de governanta respectivamente. O que soa estranho, tendo em vista todas as virtudes que o bispo possui e que nos são apresentadas no decorrer deste primeiro livro. Mas essa ausência de seguidores ocorre justamente por seu jeito mais desapegado, já que não é possível estabelecer qualquer relação de interesses vinculada ao poder que lhe é então abdicado.

“Qualquer carreira tem aspirantes que rodeiam os que já a terminaram. Não há poder que não tenha a sua corte. Não existe fortuna que não seja lisonjeada (…) 

(…) Quanto maior a diocese do amo, maiores as paróquias de seus válidos. E depois, lá está Roma. Um bispo que sabe tornar-se acerbispo, um arcebispo que chega a cardeal, leva-o como conclavista; depois você está feito; ganhará o seu pálio, tornar-se-á auditor, camareiro, monsenhor, e de Excelência para Eminência é um passo, e de Eminência para Santidade só existe a fumaça de um escrutínio (…) Em nossos dias, o único homem que pode tornar-se rei é o padre. E que rei! O rei dos reis! Que sementeira de ambições é um seminário! (…)

(…) Vivemos numa sociedade sombria. Ter êxito, eis o ensinamento destilado gota a gota pela corrupção que avança.” (p. 87-89)

Ou seja, o narrador de Victor Hugo quer chamar atenção para as relações de poder da França do Século XIX, isto é, mostrar quem detinha o poder e como ele era distribuído e exercido; seja na posição privilegiada do clero, seja no comportamento daqueles que buscam mais privilégios através de conexões com quem detém poder e pode legislá-lo em causa própria ou para agraciar seus camaradas. E aqui eu coloco MAIS privilégios, pois perceba que dificilmente um Jean Valjean da vida conseguiria fazer parte dessa rede de influências, ficando então a margem da sociedade. 

Aliás, esse tipo de análise e seus impactos socioeconômicos foram muito bem trabalhados por Daron Acemoglu e James Robinson no livro Por que as Nações Fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Nessa obra, os autores mostram que essas relações promíscuas de poder, que são desencadeadas pelo o que eles chamam de instituições políticas extrativas, tem reflexos negativos no desenvolvimento das nações, acentuando ainda mais as discrepâncias referentes ao desempenho econômico destas e a desigualdade social. O contrário seria o que eles chamam de instituições políticas inclusivas. Essa ideia, que eu acredito conversar muito bem com as críticas desenvolvidas por Victor Hugo em Les Misérables, é melhor sintetizada com o trecho abaixo:

“As instituições políticas extrativistas concentram poder nas mãos de uma pequena elite e impõem restrições ao exercício de seu poder. As instituições econômicas são então, em geral, estruturadas por essa elite, de modo a extorquir recursos do restante da sociedade (…)

Essa relação sinérgica entre instituições políticas econômicas e políticas extrativistas engendra um arraigado círculo vicioso: as instituições políticas conferem às elites o poder político de selecionar aquelas instituições econômicas com menos restrições ou forças contrárias. Permitem também que elas estruturem as futuras instituições políticas e sua evolução. As instituições econômicas extrativistas, por sua vez, vêm enriquecer essas mesmas elites, cuja riqueza e poder econômico ajuda, a consolidar seu domínio político (…)

As instituições econômicas inclusivas, por sua vez, consolidam-se sobre os fundamentos lançados por instituições políticas da mesma ordem, que asseguram a ampla distribuição de poder por toda a sociedade e restrigem seu exercício arbitrário.” (p. 64)

E estenda isso para a França do período retratado, onde o poder – seja político ou econômico – é extremamente concentrado, delineando-se então uma estrutura socioeconômica de “vencedores” e “perdedores”, em que estes se apresentam em maior número do que àqueles embora sejam menos representados (e por isso mesmo ocupam tal posição); e acredito que essa é a crítica que fica, ou que pelo menos ficou para mim, através dos capítulos referentes a Dom Bienvenu.

Enfim, não sei se estou viajando, então fiquem a vontade para deixar seus comentários e impressões.

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Diário de Leitura #2: Os Miseráveis, Victor Hugo – Sobre o prefácio 

Já li mais de 400 páginas de Os Miseráveis e não é à toa que tenho me surpreendido a cada página. Já no prefácio, Victor Hugo nos surpreende com essa justificativa:

“Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século – a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.”

Victor Hugo, 1862


Não sei se ele tinha ideia de que Os Miseráveis seria lido pelos leitores do século XXI, mas seu livro ainda se faz extremamente necessário e sua justificativa ainda é válida; não só por retratar a França do século XIX, mas por ainda conversar tão bem com o nosso século; lembremos que a percepção de desigualdade em âmbito mundial está cada vez mais gritante.

Quando eu estudei pobreza na faculdade nas disciplinas de Economia Política e Desenvolvimento Econômico – e aqui já aviso que não farei nenhuma pesquisa e me limitarei ao que vier na memória (tendo em vista que essa não é a minha área de especialização) – a estudei sob outras perspectivas além da monetária, que geralmente é a mais recorrente pelo senso comum. No entanto, pobreza é algo muito mais complexo. Tem a ver com a renda e riqueza sim, mas também com o acesso às necessidades básicas tais como saneamento básico, educação e saúde, tem a ver a liberdade de escolha como tão bem pontuado por Amartya Sen ou até mesmo com uma questão de autoestima – a pessoa realmente é e se sente incluída socialmente?

E Os Miseráveis tem o mérito de contemplar a questão da pobreza sob suas mais diversas manifestações – e já nesse prefácio é possível visualizar a capacidade de Victor Hugo de analisar a sociedade além da aparência e do superficial, vide os três problemas do século XIX aos quais ele aponta (e que podem facilmente ser estendidos para o século XXI):

i – a degradação do homem pelo proletariado

Aqui Victor Hugo contempla a desigualdade social tendo em vista as condições e privilégios que são intrínsecos aos homens e que os diferencia entre ricos e pobres, basta ter em vista como Marx dividia as classes sociais dentro do sistema capitalista: de um lado aqueles que detém os meios de produção, do outro aqueles que nada tem além da força de trabalho; ou seja, se você não for o capitalista, precisa trabalhar para sobreviver. E embora essa divisão tenha se tornado mais complexa ao longo do tempo, revelando desigualdades em nível do próprio trabalho – sugiro a leitura de O Capital no Século XXI do Thomas Piketty para melhor compreensão – é indiscutível que sua essência ainda seja a mesma. 

ii – a prostituição da mulher pela fome

Aqui, por sua vez, o autor contempla a desigualdade sob a perspectiva monetária (renda), mas também sob a perspectiva de liberdade de escolha (quando a prostituição – ou similares para uma análise mais ampla – se coloca como a única alternativa para garantir as condições básicas de subsistência, atentemos para o fato de que a prostituição, em sua maioria, não é uma escolha, mas sim falta de opções para escolher), sem esquecer, claro, da questão de gênero (lembremos que o papel da mulher no século XIX, onde o livro debruça sua descrição da sociedade, era nulo – ou quase nulo; denunciando então a desigualdade sob a perspectiva da inclusão – ou exclusão, se preferir).

iii – a atrofia da criança pela ignorância

Já aqui, o autor se refere a pobreza sob a perspectiva de acesso às necessidades básicas, destacando então o papel da educação no desenvolvimento dos indivíduos. E olhemos para educação de uma maneira mais ampla, pois educação não se reduz apenas a infraestrutura da escola e frequência nas aulas, tem a ver com a estrutura familiar e sua manutenção através do acesso a outras necessidades básicas tais como uma boa alimentação, saneamento básico para garantir condições mínimas de saúde, além de moradia e mobilidade que são importantes para o desempenho e energia despendidos nos estudos.

Enfim, é importante lembrar que esse diário não tem fins acadêmicos, tratando-se apenas das minhas impressões e reflexões de leitura, basicamente estou compartilhando as anotações que eu faço; mesmo assim é possível ver que Os Miseráveis ainda permanece muito atual e levanta diversas questões bacanas para debate – e desde o seu prefácio.

Diário de Leitura #1: Os Miseráveis, Victor Hugo – musical e introdução ao diário

Já fazia algum tempo que eu flertava com a minha edição de Os Miseráveis, mas acabava deixando ela de lado para ler outras coisas. No entanto, não pude mais adiar essa leitura e comecei a ler nesse fim de semana, confesso que muito influenciada pela divulgação da T4F para o musical que estreará em Março no Teatro Renault.

Eu sou apaixonada por musicais, sempre me envolvo e me emociono muito fácil com eles, mas acredito que ter algum vínculo com a história deixa a experiência do musical ainda mais incrível. E foi por isso que resolvi ler Os Miseráveis para já, pois mesmo que eu não termine até lá, pelo menos posso me conectar com o enredo e com os personagens.

Poder assistir esse musical no Brasil é um presente. Quis muito ter assistido em Nova York quando estive lá em Dezembro de 2015, mas infelizmente não cheguei a tempo – e deixei Les Misérables para o último dia já com a ideia de fechar a viagem com chave de ouro. 

E mesmo tendo assistido a outros dois musicais – Matilda e Finding Neverland – o que ficou marcado para mim foi o fato de não ter assistido Les Misérables. É como comprar roupa, você não pensa nas roupas que comprou, mas naquela peça que deixou por algum motivo. Quem nunca?

Então acho que nem preciso dizer a alegria que foi para mim quando descobri que o musical vinha para o Brasil, né? Tenho acompanhado desde a fase de audições ansiosamente. E depois de assistir Wicked então, percebi que a produção de Les Misérables do Brasil não deixaria nada a desejar a da Broadway. 

Mas enfim, resolvi aproveitar que o musical já está aí e que estou de férias para finalmente ler Os Miseráveis. Acontece que durante a leitura, fiquei com vontade de compartilhar trechos e as minhas reflexões e impressões com alguém, surgindo então a ideia de fazer um diário de leitura no meu blog.

Na verdade, esse diário não terá um padrão definido, posso escrever o resumo do que estou lendo (então podem ter spoilers), mas também compartilhar trechos, reflexões… Enfim, o que der na telha. Alguns posts podem servir para qualquer pessoa, outros só para quem estiver lendo mesmo (eu aviso).

Se você já leu ou estiver lendo, vou adorar saber suas impressões.

Leituras de 2016 em números 

Em 2016 eu finalizei 34 livros. Esses livros:

Totalizam 13.235 páginas, o que dá em média aproximadamente 1.103 páginas por mês, 36 páginas por dia e 389 páginas por livro. Lembrando que não contei os livros inacabados, didáticos e contos, então achei um número bom tendo em vista que não tive muito tempo para ler no passado.

53% dos livros foram lidos em sua versão física e 47% em e-book.

O gênero que eu mais li foi Economia e Política (21%), seguido de Clássicos (14%) e Fantasia (14%). O restante para completar os 100% foram de estilos bem variados.

Eu li mais homens (76%) do que mulheres (24%).

Os países mais lidos foram Estados Unidos (35%), Brasil (26%), Inglaterra (18%) e Rússia (9%).

Sendo que considerei 53% das leituras ótimas, 32% foram razoáveis e 15% ruins.

Os meus preferidos foram:

Guerra e Paz do Tolstói;

– Lolita do Vladimir Nabokov;

O Americano Tranquilo do Graham Greene;

A Redoma de Vidro da Sylvia Plath;

– Guerra dos Tronos do George R. R. Martin;

Pais e Filhos do Ivan Turguêniev.

Merecem menções honrosas:

– Demografia: a ameaça invisível do Fábio Giambiagi e Paulo Tafner;

– Senhor dos Anéis do Tolkien;

Shakespeare and Company da Sylvia Beach;

Esse ano li alguns contos também, mas não foram contabilizados. Meus preferidos foram Sebastopol do mês de Dezembro do Tolstói e Bonequinha de Luxo do Truman Capote.

Melhores leituras de 2016

Eu sei que ando meio sumida, mas quero que o conteúdo do meu blog seja natural e espontâneo, então publicarei apenas quando eu realmente achar que tenho algo para compartilhar. 

Agora mesmo, em meio às expectativas para o ano novo, fiquei com vontade de escrever sobre as melhores leituras que fiz em 2016.

A começar por Guerra e Paz do Tolstoi. Como já disse aqui, esse calhamaço que ultrapassa a marca de 2.500 páginas se tornou pequeno para mim, é um livro completo, que me deixou com vontade de “quero mais”. Tenho lido os contos escritos pelo autor e espero ler seus outros grandes romances e novelas.


Outro livro que me marcou no ano passado foi o Guerra dos Tronos, primeiro volume da série As Crônicas de Gelo e Fogo escrita por George R. R. Martin. Eu gostei tanto desse livro que li duas vezes e pretendo reler mais e mais vezes (além, claro, de dar continuidade à série). Não me lembro de ter me envolvido tanto com uma história assim desde Harry Potter. Mesmo na releitura, eu ficava ansiosa para dedicar alguns minutos do meu dia ao livro e levava para cima e para baixo para não perder nenhuma oportunidade de ler. Como só li o primeiro da série, não posso falar dela como um todo, mas esse livro é complexo e muito bem construído, tem tudo o que eu gosto. Não sei onde eu estava que ainda não tinha lido.

O Americano Tranquilo do Graham Greene, por sua vez, foi o livro que li com a sensação de que gostaria de ter escrito. O autor cria várias alegorias com a realidade geopolítica da época e até consegue antecipar o cenário que se configuraria alguns anos após sua publicação. E o narrador, que também é personagem da trama, apesar de ranzinza, é um dos meus narradores preferidos da vida, se não for o preferido.

A Redoma de Vidro colocou a depressão na pauta dos meus interesses e preocupações. Uma doença muito comum, que precisa ser encarada com a seriedade que lhe é merecida. Estou lendo O demônio do meio-dia do Andrew Solomon, leitura que foi influenciada após o livro da Sylvia Plath, e uma das coisas pelas quais ele chama mais atenção em relação a essa doença é justamente o desprezo pelo qual ela é tratada. Aliás, deixo a indicação de um vídeo feito pela Casa do Saber sobre a banalização da depressão, que é realmente um tapa na cara da sociedade:

Lolita do Vladimir Nabokov me chamou atenção para algo que antes eu nem reparava: a narrativa. Esse livro simplesmente não seria o clássico que é se tivesse sido escrito por outro autor. Nabokov escolheu as palavras dessa obra de maneira muito minuciosa e sem pesar demais, ele conseguiu escrever sobre sexo sem ser explícito e vulgar. Ele consegue te prender mais pela construção do texto do que pela história propriamente dita. E de verdade, não li nada na vida tão bem escrito quanto Lolita (e desconfio que não lerei).


Pais e Filhos do Ivan Turguêniev foi uma leitura que foi amadurecendo aos poucos para mim. Inicialmente foi uma leitura ok, mas que devidamente contextualizada garantiu seu lugar no meu coração. Tem um questão de retórica envolvendo a construção dessa história que me fascina como economista. É um livro sobre embate de gerações, mas a posição de Turguêniev de fato não é conhecida – embora essa discussão tenha sido bastante acalorada na época de sua publicação  – então percebi que o posicionamento do leitor em relação a este dependerá da forma que ele encara o mundo e da retórica que mais lhe convence. Eu sou “Team Pavel”, mas tem quem se coloque como “Team Bazárov”. E por isso me fascina como economista, pois o que mais existe na minha área é o embate de ideias. Não sei se era a intenção de Turguêniev, mas essa foi a leitura que fiz mediante a reação dos leitores de Pais e Filhos.

Por fim, preciso fazer uma menção honrosa para Shakeaspeare and Company: Uma livraria da Paris do entre-guerras da famosa livreira norte-americana Sylvia Beach. Eu amei ler suas memórias do período mais efervescente de Paris e esse livro tem influenciado (e acredito que ainda irá influenciar bastante) as minhas próximas leituras. Agora mesmo estou lendo Paris é uma festa do Ernest Hemingway, que trata da mesma Paris descrita por Sylvia Beach, mas sob outra perspectiva e narrativa. Já me sinto parte da panelinha, só nasci na época errada, rs.


E a trilogia O Senhor dos Anéis do J. R. R. Tolkien também merece ser mencionado, pois foi uma releitura com cara de leitura nov. Amei embarcar nessa transição entre a terceira e quarta era da Terra Média contadas nas páginas dos livros A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei, sendo que o primeiro livro foi o meu preferido. Tolkien não é considerado o rei da fantasia à toa, ele realmente sabe contar uma boa história… e tenho certeza de que ele já esteve na Terra Média, porque ele realmente consegue descrevê-la de maneira perfeita. Aliás, as descrições “tolkianas”, que aos meus 11-12 anos de idade me incomodaram, me deixaram extremamente encantada aos 26.


E foi isso. Apesar de ter lido mais coisas, 34 livros e mais alguns inacabados, esses foram os melhores.

E vocês? O que leram de bom em 2016?

Sobre minha experiência com My Fair Lady 

Essa semana tive a oportunidade de assistir a versão brasileira do musical My Fair Lady, que está em cartaz em SP no Teatro Santander no Complexo J.K até 11/12, então quem tiver oportunidade: corre, porque está “bão demais”.


My Fair Lady é um dos meus musicais preferidos, adoro os personagens e as músicas ao ponto de não conseguir escolher favoritos, cada detalhe é especial a sua maneira.

Para quem não sabe, My Fair Lady é um musical inspirado na peça Pigmaleão do dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, que inclusive tem uma tradução para o português feita por Millôr Fernandes e publicado pela L&PM, tradução que deve ter dado um baita trabalho, cá entre nós, já que o texto original se trata de uma denúncia das diferenças sociais e de classe da Londres do início do século XX materializadas justamente pela fala da língua inglesa.

Na comédia, Professor Higgins, famoso professor de Fonética, tem o desafio de transformar a humilde vendedora de flores, Eliza Doolitle, em uma verdadeira lady em um espaço relativamente curto de tempo. Além da aparência e das roupas, a mudança de Eliza é vista principalmente através da linguagem. Mas esse é só o pano de fundo, pois muita coisa acontece nesse tempo de convivência entre os dois, e, o final, pelo menos o do musical, fica a cargo do telespectador.

Essa história foi levada para os palcos da Broadway em 1956 com Julie Andrews e Rex Harrison como protagonistas. E embora a adaptação cinematográfica mais famosa seja a de 1964, que manteve Rex Harrison e trouxe Audrey Hepburn para o elenco, a sua primeira versão foi feita em 1938. Já no Brasil, o musical teve versões para os palcos em 1962, 2007 e agora em 2016.

Eu conhecia a versão com a Audrey Hepburn e agora tive o contato com a versão brasileira e amei. A nossa adaptação conseguiu manter a essência da história de forma muito competente, mas sem deixar de lado as especificidades do nosso país. Se você tiver um tempinho, pode conhecer melhor esse trabalho através da entrevista com os protagonistas no vídeo abaixo:

E para finalizar, trouxe os vídeos que eu encontrei no YouTube da performance de Wouldn’t It Be Loverly (que ficou como Bão demais em Português) interpretada por Julie Andrews, Audrey Hepburn e a brasileira Daniele Nastri.

Julie Andrews:

Audrey Hepburn:

Daniele Nastri:

Para quem não puder ver a peça em SP, fica então a recomendação do filme de 1964.