#16 – Desonra, J. M. Coetzee 

Coincidentemente ao episódio de assédio protagonizado pelo ator global José Mayer, hoje resolvi escrever sobre o livro Desonra escrito pelo Prêmio Nobel de Literatura de 2003, J. M. Coetzee. Coincidência, porque o livro trata, de maneira abrangente, das relações de poder entre grupos e classes, onde uma que se destaca é justamente a delineada entre homens e mulheres.

O livro narra o processo literal de “desonra”, ou “disgrace” para fazer frente à sua versão em inglês, que o professor universitário, David Lurie, enfrenta após dormir com uma de suas alunas e abusar de seu poder como professor para favorece-la, embora fique em aberto que ela talvez não tenha sido a primeira.

É irônico que justo no começo, o narrador esclarece que o personagem se acha muito bem resolvido com a questão do sexo. Divorciado duas vezes, aos 52 anos, tem encontros semanais com uma prostituta, que acaba o dispensando. David Lurie ainda tenta correr atrás dela, mas depois desencana e se contenta em sair casualmente com outras mulheres até se relacionar com a aluna que desencadeará todo o restante da trama. 

Uma coisa que fica muito clara para o leitor, ou pelo menos ficou para mim, é a condução abusiva que David Lurie confere aos seus relacionamentos. Para se satisfazer, o que faz de maneira até sistemática e fria, esse personagem não demonstra nenhuma sensibilidade pelas mulheres que se envolve, pelo contrário, realmente invade o que elas tem de mais privado e íntimo: desde a vida pessoal da prostituta até de fato o corpo da estudante mesmo diante de uma recusa. 

Por mais que elas tenham se envolvido com David Lurie de uma certa forma, ele extrapola os limites do estabelecido consensualmente, demonstrando o controle que tenta (e força) exercer em sua relação com essas mulheres para coagi-las com o intuito de atender pura e simplesmente seus desejos e vontades. 

E é ao não admitir o seu erro, sem demonstração de arrependimento, colocando-o até como uma “experiência enriquecedora”, e nem fazendo questão de pelo menos pedir desculpas, ainda que superficiais, que resolve se afastar de sua vida acadêmica e viver uma temporada com sua filha em uma fazenda, onde toma então contato com as dificuldades da realidade da África do Sul pós-apartheid.

Trecho de um diálogo entre David Lurie e sua filha, Lucy, na página 82

“Toda mulher de quem me aproximei me ensinou alguma coisa sobre mim mesmo. Foi assim que elas me fizeram uma pessoa melhor.”

“Espero que não esteja dizendo que a recíproca é verdadeira. Que conhecer você fez das suas mulheres pessoas melhores”

Pode conter spoilers a partir daqui, embora eu acredite que esse livro não deva ser lido pelo o que acontece.

É só quando vê Lucy, sua filha, ser estuprada por três homens, sem poder fazer nada para defendê-la, que ele parece se humanizar em relação à cultura do estupro e a posição ocupada pelas mulheres. Como é bem explorado no livro, o abuso sexual é uma forma de dominação do homem sobre a mulher. Ou como colocado por Lucy, do ponto de vista da mulher, é a sua sujeição, submissão. Embora Lucy se sinta humilhada, em determinado ponto da obra, inerte a situação, aceita o que aconteceu e os seus desdobramentos, acreditando que tudo que tem enfrentado desde então seja um “pedágio” que precisa pagar para poder viver em paz. 

(…) Pensa nos três visitantes indo embora no Toyota não-tão-Velho, o banco de trás cheio de objetos domésticos, os pênis, suas armas, acomodados quentes e satisfeitos entre as pernas – ronronando é a palavra que lhe vem à mente. Devem ter tido todas as razões para ficar contentes com o trabalho daquela tarde; deviam estar felizes com sua vocação.” p. 181

Lucy para defender algumas decisões que tomou após o estupro em diálogo com David na página 231

“É, eu concordo, é humilhante. Mas talvez seja um bom ponto para começar de novo. Talvez seja isso que eu tenha de aprender a aceitar. Começar do nada. Com nada. Não com nada, mas… com nada. Sem cartas, sem armas, sem propriedades, sem direitos, sem dignidade.”

Esse “pedágio”, aliás, apresenta um outro ponto que é trabalhado nesse episódio em específico, pois não diz apenas sobre a relação entre homem e mulher, mas também sobre a relação entre negros e brancos, pois além da violência ter sido cometida por três homens negros a uma mulher branca, a personagem atenta para o ódio com que o ato ocorreu, como se realmente fosse uma espécie de “vingança” da eterna dívida sul-africana estabelecida pelo apartheid. Aliás, para frisar ainda mais, quando David tenta cobrar explicações de um dos homens ao se deparar com ele vivendo bem ao lado da filha, um amigo em comum entre eles, Petrus, e que para David está envolvido nesse ataque tanto quanto, o defende e imediatamente deixa bem claro que aquele homem ao qual ele tenta acusar e agredir é o “seu povo”.

Enfim, Desonra é um livro complexo e forte, “é uma resposta artística profunda à ferocidade avassaladora da realidade” como bem pontuado por Mário Sérgio Conti na “orelha” da edição publicada pela Companhia das Letras. Além das relações já explicitadas brevemente nesse post, também aborda questões como velhice, frustrações com a carreira acadêmica e relação entre o ser humano e a natureza.

Quanto ao autor, além de ser laureado pelo Nobel em 2003, também foi o primeiro a ser agraciado duas vezes pelo Booker Prize.

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐

Diário de Leitura #8: Os Miseráveis, Victor Hugo – Contexto Histórico 

Uma das coisas que eu mais gosto em Os Miseráveis, e que geralmente quem lê não gosta muito, são as digressões de Victor Hugo. Em algumas destas, o autor nos situa acerca do contexto histórico da França do Século XIX, que é um fator extremamente importante para compreender a atmosfera dos eventos e desdobramentos contidos na obra. 

Eu pensei em fazer um diário sobre isso, mas acabei de assistir um vídeo muito bom feito pela Vevs Valadares, que segue para quem quiser se encontrar não só dentro de Os Miseráveis, mas também em outras obras que contemplam o mesmo ou parte do período histórico que permeia a trajetória de Jean Valjean e companhia. 

“A Restauração havia sido uma dessas fases intermediárias difíceis de definir, em que há fadiga, barulho, murmúrios, sono, tumulto, e que nada mais são além da chegada de uma grande nação ao início de uma etapa. Essas épocas são singulares, e iludem os políticos que desejam explorá-las.”( p. 1127)

“Alto é a palavra formada se duplo sentido singular, quase contraditório: tropa em marcha, isto é, movimento; parada, isto é, repouso.

O alto é a reparação das forças; é o repouso armado e atento; é o fato consumado que posta sentinelas e se mantém em guarda. O alto supõe o combate de ontem e o combate de amanhã.

É o intervalo entre 1830 e 1948.

O que chamamos aqui de combate, poderíamos chamar de progresso.” (p. 1137)

Diário de Leitura #7: Os Miseráveis, Victor Hugo – Sobre Fantine e Cosette, a materialização da pobreza da mulher e da criança (COM SPOILERS)

Havia cinco anos que Marius vivia na pobreza, nas privações, na penúria até, mas só então percebeu que não havia conhecido a verdadeira miséria. A verdadeira miséria ele acabava de ver. Era aquela larva que passara sob seus olhos. É que, com efeito, quem só viu a miséria do homem nada viu; é preciso ver a miséria da mulher; quem só viu a miséria da mulher nada viu; é preciso ver ainda a miséria da criança.” (p. 1021)

Quem acompanha esse diário desde a primeira publicação, deve perceber que existe um gap enorme entre o último diário e esse, mas confesso que eu não parei mais a leitura para escrever. No entanto, um pouco antes de terminar o primeiro volume da edição da Cosac Naify de Os Miseráveis, me deparei com esse trecho acima que sintetiza bem os pontos que mais me chamaram atenção desde o último diário.


Isso porque logo após toda a trajetória de Jean Valjean, conhecemos finalmente Fantine e sua filha Cosette, que introduzirão os elementos referentes à pobreza da mulher e da criança. E mais uma vez preciso elogiar a capacidade do autor em analisar a condição dessas pessoas de forma muito complexa, contemplando a miséria em todas as suas manifestações. 

Na pobreza da mulher, o que se destaca na trajetória de Fantine é a sua degradação gradativa que é materializada principalmente por sua vaidade e sua honra. Fantine recorre a todos os recursos possíveis para garantir melhores condições de vida para a sua filha, tendo que apelar, em última instância, para a prostituição. Mas ela abre mão de tudo: deixa o convívio com a filha, entregando Cosette aos cuidados da família Thénadier na expectativa (bastante frustrada) de que a menina tenha um bom lar enquanto ela não pode cuidar dela; trabalha por horas e horas, vende todas as suas coisas, inclusive cabelo e dentes quando já não tem mais nada, até chegar ao ponto de vender o próprio corpo. E ela nem faz isso por ela, mas pela filha, é a imagem da mãe que abdica de si por seus filhos, para ela nada é mais importante que o bem-estar de Cosette.

“A que se reduz toda essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava.

Para quem? Para a Miséria.

Para a fome, o frio, a solidão, o abandono, a nudez. Doloroso comércio! Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita (…) costuma-se dizer que a escravidão desapareceu por completo da civilização europeia. Grande erro! Ela continua a existir, mas oprimindo somente a mulher, e chama-se prostituição.

(…) nada mais restava a Fantine do que possuía outrora (…) é a imagem, ao mesmo tempo, da desonra e da severidade. A vida e a ordem social disseram-lhe sua última palavra. Tudo o que tinha de lhe acontecer já havia acontecido. Tudo experimentou, tudo sofreu, tudo perdeu, tudo chorou. Resignou-se, com essa resignação que se assemelha a indiferença, como a morte se assemelha ao sono. Não evita coisa alguma. Não crê em coisa alguma. Que as nuvens todas se descarreguem sobre ela, que todo um oceano passe por cima de sua cabeça! Que importa!” (p. 280)

Já a miséria da criança a partir da Cosette tem sua materialização através da imagem de uma boneca. Deixando de lado toda a polêmica entre brinquedos de menina e de menino, apesar de a personagem passar frio, fome, ser humilhada e maltratada, além de forçada a fazer trabalhos pesados, a compreensão de sua condição na sociedade se dá pelo brinquedo que não pode ter, o que é bastante representativo para a percepção de pobreza de uma criança. E nesse caso, Victor Hugo utiliza a imagem da boneca e a explora ao longo de toda a trajetória mais pobre de Cosette. E acho que isso demonstra toda a genialidade e sensibilidade desse autor.

“A boneca das filhas de Thénardier já estava desbotada, velha e quebrada, mas não parecia menos admirável aos olhos de Cosette, que nunca possuira uma igual, uma boneca de verdade, para usarmos a expressão que qualquer criança compreende!” (p. 569)


#15 – Dias de Abandono, Elena Ferrante

E finalmente tive o meu primeiro contato com a queridinha do momento: a escritora italiana de identidade misteriosa, Elena Ferrante. Particularmente, eu não faço questão de saber quem é, mas fiquei muito curiosa para ler os seus livros, que tem sido bem avaliados e recomendados, principalmente depois da publicação da tetralogia napolitana.

Dias de Abandono, como o próprio título já entrega, é narrado por Olga, uma mulher recém abandonada pelo marido. Embora eu não goste da palavra abandono, é exatamente assim que a protagonista se sente. Logo no início, Mario simplesmente resolve sair de casa, sem dar maiores satisfações, voltando apenas para visitar os dois filhos e o cachorro. 

O que de início, é encarado por Olga como algo momentâneo, toma outro rumo quando ela percebe que de fato o casamento acabou após quinze anos. Assim, o leitor imerge profundamente em todos os seus pensamentos e conflitos internos, que entram em um verdadeiro confronto com suas responsabilidades e novas funções cotidianas. 

“(…) Normalmente era Mário quem levava o cachorro para passear, fazia isso entre onze horas e meia-noite, mas desde que tinha ido embora até essa função era minha. As crianças, o cachorro, as compras, o almoço e a janta, o dinheiro. Tudo que mostrava as consequências práticas do abandono (…) De agora em diante seria assim, eu sozinha, com as responsabilidades que antes eram de nós dois.”

Olga é uma mulher que abdicou de uma carreira para se dedicar exclusivamente às funções de mãe e esposa. Com o fim do casamento, no entanto, todas suas expectativas nessa instituição fracassam, e ela precisa se redefinir fora do padrão ideal da família tradicional. 

Como o fim do relacionamento se deu de maneira repentina, mais precisamente numa “tarde de abril, logo após o almoço“, ela se vê numa busca incessante pelas respostas das questões que o ex marido deixou no ar.  Então revisita o passado de maneira exaustiva para tentar compreender sua nova realidade e fica realmente obcecada por Mario e sua, agora antiga, vida de casada. Não que ela o queira de volta, mas não saber o por que é o que a atormenta. 

Acontece que esse processo não se dá de maneira muito racional como pode parecer a primeira vista, gradativamente a personagem se isola em um mundo muito particular, onde, inerte, não consegue se concentrar em mais nada além de imaginar o que ele faz ou deixa de fazer enquanto está longe dela e dos filhos, o que confere um tom ainda mais dramático para a narrativa.

“Eu não suportava que ele não desse mais nenhum sinal de vida, não tinha de me privar de um conforto que era necessário para mim, ele me devia pelo menos atenção, com que coragem ele me largava sozinha, sobrecarregada, analisando como em um microscópio, ano por ano, toda a nossa vida juntos?”

Não é um livro cheio de acontecimentos, mas o turbilhão de sentimentos dessa mulher em meio ao término de seu relacionamento é angustiante e essa angústia que te prende do começo ao fim. Olga se torna incapaz de fazer coisas normais, como abrir uma porta e até cuidar dos próprios filhos. 

Até determinado ponto, eu me coloquei no lugar dela e compreendi os pontos de interrogação que tomaram de conta dela e toda a exaustão de estar sozinha em meio à tantas coisas para fazer e se preocupar. Mas confesso que senti vontade de dar aquele chacoalhão nela diversas vezes durante a leitura. No entanto, a própria Olga faz questão de mostrar que também não queria ser como as mulheres despedaçadas dos livros lidos na adolescência e conta que chegou mesmo a ter desprezo por uma vizinha que entrou em colapso após o fim do casamento, travando, desta forma, uma luta interna entre o que realmente sente e o que não quer se tornar, o que desconstrói todos os preconceitos e julgamentos que o leitor possa vir a ter, servindo como um alerta de que essa situação pode ser vivida por qualquer um, até mesmo por quem jura que faria diferente como é ilustrado pela experiência visceral dessa protagonista.

“(…) quando você não sabe segurar um homem perde tudo, relatos femininos de fins de caso, o que acontece quando, plena de amor, você não é mais amada, é deixada sem nada. A mulher perdeu tudo, até o nome (talvez se chamasse Emilia), se tornou para todos “a pobre coitada”, começamos a falar dela chamando-a desse jeito. A pobre coitada chorava, a pobre coitada gritava, a pobre coitada sofria, dilacerada pela ausência do homem vermelho suado, com olhos verdes de perfídia (…) Eu tinha oito anos mas sentia vergonha por ela, ela já não acompanhava mais os filhos, já não tinha mais aquele cheiro bom.”

Elena Ferrante escreve de forma seca, sem muitos malabarismos com as palavras, deixando a personagem muito real e verossímil. E pasme, mas ela consegue entregar tudo isso e mais um pouco em menos de duzentas páginas. Minha única ressalva é em relação ao último capítulo, pois o penúltimo já seria o suficiente, pelo menos para mim, mesmo assim o livro não perde sua qualidade e seu valor literário.

Classificação: ⭐⭐⭐⭐

Diário de Leitura #6: Os Miseráveis, Victor Hugo – Sobre reinserção do criminoso

Os Miseráveis me demonstra a cada página porque é considerado um clássico: mais atual, impossível. É o século XIX nos mostrando que a ideia de evolução é quase uma utopia.

“É próprio das sentenças em que domina a impiedade, isto é, a brutalidade, transformar pouco a pouco, por uma espécie de estupida transfiguração, um homem em animal, às vezes até em animal feroz. As sucessivas e obstinadas tentativas de evasão bastariam para provar o estranho trabalho feito pela lei sobre a alma humana. Jean Valjean renovou as fugas tão inúteis e loucas toda vez em que se apresentou ocasião propícia, sem pensar um pouquinho nas consequências, nem nas vãs experiências já feitas. Fugia impetuosamente, como o lobo que encontra a jaula aberta. O instinto lhe dizia: Salve-se! A razão lhe teria dito: Fique! Mas, diante de tentação tão violenta, o raciocínio desaparecia, ficando somente o instinto. Era o animal que agia. Quando era preso novamente, os novos castigos que lhe infligiam só serviam para torná-lo mais sobressalto” (p. 144)

No post anterior do diário, eu falei sobre a questão da balança entre crime e castigo. Não estudei Direito, então não me vejo com propriedade para falar sobre questões penais. Mas como economista,e, portanto, como cientista social, Victor Hugo fez minha cabeça entrar em erupção e me despertou algumas reflexões sobre a importância de políticas públicas de reinserção de presidiários. E esse trecho em específico levanta a importância de se pensar a reinserção em todo o processo de cumprimento da pena, desde o seu veredito. 

Será que a rotina e o tratamento nas cadeias são suficientes para fazer com que esses indivíduos repensem seus crimes e sejam então soltos mais tarde com capacidade plena de se inserir novamente a sociedade? Victor Hugo mostra que não necessariamente para a França do século XIX; e podemos ver que o mesmo se estende para a nossa sociedade do século XXI. Além disso, tem o próprio sentimento de inclusão, afinal ex presidiários podem não ter o passaporte amarelo de Jean Valjean, mas precisam carregar esse status e as dificuldades atreladas a este do mesmo jeito.

Não estudei Economia do Crime, mas já vi algumas abordagens que tratam da estrutura de incentivos do crime, estabelecendo modelos pautados em agentes racionais que avaliam os custos e benefícios de suas ações. Então uma forma de inibir a criminalidade seria justamente mexer nos custos de se cometer o crime; tanto em termos de benefício líquido (análise dos ganhos e punições) quanto em termos de alternativas ao ato (outras oportunidades além do crime). É interessante, mas tem lá suas limitações, já que, caso de fato tenha algum impacto, seu combate concentra-se apenas a priori. Mas cometido o ato, como fazer com que a experiência dentro da cadeia seja positiva em termos de reinserção – tanto para o indivíduo que cometeu o crime quanto para a sociedade que o receberá posteriormente? Não sei, mas é uma reflexão que ficou.

“(…) a sociedade só lhe havia mostrado esse olhar carrancudo que chama de Justiça e que mostra àqueles a quem castiga. Os homens só o haviam tocado para fazê-lo sofrer. Cada contato tinha sido um golpe (…) De sofrimento em sofrimento, chegara à convicção de que a vida era uma guerra, e que nessa guerra ele era o vencido. Ele não tinha outra arma além do ódio. Tratou, portanto, de aguçá-lo mas galês e de levá-lo consigo quando posto em liberdade” (p.141)

Carnaval, Amazon e e-books

Nesse Carnaval, a Amazon fez várias promoções, como é de praxe, e entre elas teve uma muito bacana para quem gosta de comprar e-books: um cupom de R$5,00 para usar durante todo o período, que se encerra hoje (28/02), aliás. E óbvio que eu aproveitei. Para quem quiser aproveitar ainda, o cupom de desconto é CARNAVAL5 e pode ser utilizado mais de uma vez.

Como eu mostrei no post que fiz sobre as minhas leituras de 2016, os e-books realmente já fazem parte da minha vida literária e correspondem a quase 50% do formato de livros que eu leio.

Infelizmente muita gente gosta de rivalizar livros físicos e livros digitais, quando essa disputa de fato não existe. O consumo de um não exclui o consumo de outro, os livros digitais entram simplesmente como mais uma opção.

No meu caso, eles foram muito bons para: 

– conhecer estilos e autores que eu jamais compraria na versão física;

– garantir edições que não estavam mais disponíveis na versão física;

– fazer comparações de preços e poder ficar com a melhor opção para o meu bolso;

– poder levar uma biblioteca comigo para todos os lugares;

Mas enfim, já falei em um post aqui no blog sobre as vantagens de um e-reader. O post de hoje é para mostrar os títulos que eu consegui adquirir nessa promoção da Amazon e que devem aparecer por aí nas minhas próximas leituras (ou não). Não é um daqueles posts de ostentação, como é comum por aí, é só realmente para aproveitar e comentar sobre alguns livros que eu quero ler.


A edição mais cara foi a de O vento levou da Margaret Mitchell, que com o cupom saiu pela bagatela de R$5,80. E valeu a pena, pois apesar de ser um livro que eu gostaria de ter a edição física, a única edição que já vi disponível no mercado além de ser cara, é muitas vezes encontrada apenas em sua versão de bolso, que é dividida em dois volumes e é um horror, e por horror, leia-se: páginas brancas, péssima diagramação e letras minúsculas (minha miopia chora). Aliás, a maioria das edições compradas aqui são de livros de bolso, e por isso até prefiro ler em e-book. De todos, o que eu ainda quero adquirir a versão física é a edição de Admirável Mundo Novo do Audous Huxley, mas por ora, vai essa mesmo. 

Ficção Científica e Distopia

1. O fim da eternidade do Isaac Asimov;

2. Eu, robô do Isaac Asimov;

3. O homem do Castelo Alto do Philip K. Dick;

4. Admirável mundo novo do Auldous Huxley;

Clássicos

5. E o vento levou da Margaret Mitchell;

6. As aventuras de Huckleberry Finn do Mark Twain;

7. A ilha do Tesouro do Robert Stevenson;

8. Madame Bovary do Gustave Flaubert;

9. O Processo do Franz Kafka;

10. O morro dos ventos uivantes da Emily Brontë;

11. Infância, adolescência, juventude do Liev Tolstoi;

12. As aventuras de Robinson Crusoé do Daniel Defoe.

Alguns eu confesso que só comprei para aproveitar a promoção e não tenho vontade de ler agora, como é o caso de O morro dos ventos uivantes da Emily Brontë e A ilha do tesouro do Robert Stevenson. Mas são livros que eu quero ler em algum momento da vida, afinal “um clássico é um clássico”.

Já os outros, se eu pudesse, engoliria todos de uma vez, sendo que os que eu mais quero ler são os de distopia e ficção científica. É um gênero que não costumo ler, mas que estou bem empolgada para começar como vocês podem ver pelas minhas aquisições. Na verdade, estou doida para ler a trilogia da Fundação do Isaac Asimov, que é indicada, inclusive, pelo Nobel de Economia Paul Krugman. Mas resolvi começar a ler Asimov por livros que também são muito bem avaliados – Eu, robô e O fim da eternidade

Comprei O homem do Castelo Alto do Philip K. Dick pela premissa: ele cria uma realidade adaptada em que os nazistas venceram a Segunda Guerra Mundial. Em tempos de intolerância, como o que vivemos, é uma ótima reflexão a se fazer.

As Aventuras de Huckleberry Finn, eu tenho a edição em inglês e é assim que quero ler essa obra. Só comprei essa edição para caso eu ache muito difícil ler no original, pois logo no início Mark Twain avisa sobre o uso de vários dialetos. É até um paradoxo, tendo em vista que o que me motiva a ler no original é justamente o uso desses dialetos, pois acho que muita coisa pode se perder com a tradução, que acaba se tornando mais uma adaptação. Isso não diminui a obra, é o que ocorre em Pigmaleão do Bernard Shaw, livro que deu origem ao musical My Fair Lady, e que já falei sobre aqui no blog também, por exemplo, mas quero ter a experiência do original. Aliás, já estou também com a edição de Pygmalion e deve ser aí uma das minhas próximas leituras.

Diário de Leitura #5: Os Miseráveis, Victor Hugo – Sobre crime e castigo (não, não é sobre a obra de Dostóievski)

Acho que não é nenhum spoiler a história de Jean Valjean, o personagem mais icônico de Os Miseráveis, que ficou preso por dezenove anos por roubar um pão. Na verdade, não só por roubar um pão, a sentença foi sendo estendida em virtude de suas tentativas de fuga.

Mesmo assim, soa absurdo. E é aproveitando disso que Victor Hugo traz algumas reflexões importantes sobre crime e castigo; o autor, segundo notas de rodapé, desenvolveu trabalhos se posicionando contra a pena de morte; e os seus argumentos vão se desenvolvendo ao longo da trajetória de Jean Valjean em Les Misérables.

“Façamos um pequeno parêntese. É esta a segunda vez em que, nos seus estudos sobre a questão penal e a condenação pela lei, ao autor deste livro se depara o furto de um pão como ponto de partida para o desastre de toda uma existência (…) Uma estatística inglesa constata que, em Londres, de cinco roubos, quatro têm como causa imediata a fome” (p. 139)

Não é que Victor Hugo minimize o ato do crime, pelo contrário, em um ponto de reflexão, inclusive, o narrador coloca que de fato Jean Valjean o cometeu, pois ele poderia ter pedido o pão ou buscado outras alternativas além a de invadir o estabelecimento de alguém para roubar. A questão que Victor Hugo se debruça, no entanto, não é sobre o crime propriamente dito, mas sobre a punição.

“Convenceu-se de que não havia nenhum equilíbrio entre o prejuízo que havia causado e o prejuízo que sofrera; concluiu, enfim, que seu castigo não era, na verdade, injustiça, mas, sem duvida alguma, uma iniquidade” (p. 141)

Além disso, o autor demonstra a cada página sua capacidade de enxergar o desenvolvimento humano de maneira muito completa, contemplando não só as questões relacionadas a renda e riqueza, como é de praxe, mas também as relacionadas aos acessos e oportunidades.

“Nessa história toda, o erro era só dele? Era igualmente grave o fato de ele, trabalhador, não ter trabalho; ele, trabalhador, não ter pão. Depois de a falta ter sido cometida e confessada, o castigo não foi por demais feroz e excessivo? Onde haveria mais abuso: da parte da lei, na pena, ou da parte do culpado, no crime? (…) 

Pode a sociedade humana ter o direito de sacrificar seus membros, ora pela sua incompreensível imprevidência, ora pela sua impiedosa previdência, acorrentando indefinidamente um homem, entre essa falta e esse excesso, falta de trabalho e excesso de castigo? Não seria, talvez, exagero a sociedade tratar desse modo precisamente os seus membros mais maldotados na partilha dos bens de fortuna e, consequentemente, os mais dignos de atenção?” (p. 140)

O que vai de encontro com um trecho sobre educação que é colocado logo no início, na página 37:

“Ensinem o mais possível aos que nada sabem; a sociedade é culpada de não instruir gratuitamente e responderá pela escuridão que provoca. Uma alma na sombra da ignorância comete um pecado? A culpa não é de quem o faz, mas de quem provocou a sombra.”

Outra questão bastante interessante ainda em torno da questão do crime em Os Miseráveis é sobre o processo de reinserção de um presidiário após cumprir sua pena. Através da trajetória de Jean Valjean, é possível ver que não é nada fácil. Para conseguir se reinserir, o personagem é obrigado a mudar de nome e endereço diversas vezes ao longo da trama. E além de portar um passaporte amarelo, que sinaliza sua condição de ex presidiário, a perseguição de Javert está ali o tempo todo como um lembrete de sua posição.

Uma das partes mais emocionantes para mim é quando Jean Valjean é posto em liberdade. Mesmo depois de ter cumprido sua pena, ele ainda representa uma ameaça para a sociedade, que o rejeita completamente. Em sua primeira noite, não consegue abrigo em lugar algum, é enxotado em todas as suas tentativas, que inclui até mesmo a própria prisão e uma casinha de cachorro. É só quando encontra o Bispo de Bienvenu, personagem do qual já falei aqui, que consegue não apenas comida e um lugar para dormir, como é tratado como um cidadão comum:

“Cada vez que ele dizia senhor, com sua voz docemente grave e tão amiga, o rosto do homem se iluminava. Senhor, para um forçado, é um copo de água a um náufrago da Medusa. A ignomínia tem sede de consideração.” (p. 124)

Fazendo um exercício de me colocar na posição dessa sociedade, e deixando de lado o fato de se tratar de Jean Valjean, provavelmente eu engrossaria o coro daqueles que o rejeitam, não com grosserias, mas com apatia, um posicionamento que me incomodou com essa leitura. A reação de Jean Valjean com o tratamento que o bispo lhe deu, quase de incredulidade e ao mesmo tempo de êxtase, me deixou bastante emocionada, mas também me fez refletir mais sobre a importância de políticas públicas de reinserção social para ex presidiários, coisa que talvez eu nunca tenha me debruçado a respeito, o que, no entanto, não cabe mais aqui e pode ser tema para um próximo post.